FOLHA DE SAO PAULOAbr 28, 2005
GERALD THOMAS LANÇA NANINI EM PESADELO
Um personagem-ator de nome Marco Nanini recebe umas caixas estranhas,
documentos secretos que provariam a vinculação da CIA, a agência de inteligência norte-americana, com o golpe militar de 64 no Brasil.
Mas essas caixas poderiam fazer parte de uma rede internacional de tráfico
de órgãos, como suspeitam os policiais que tomam sua casa de assalto. O remetente é um sujeito que mora em Nova York, João Paradeiro. Quando despertou naquela manhã, Nanini apenas começava o seu pesadelo.
Thomas escreveu e agora encena "Um Circo de Rins e Fígados" -a partir de
sábado, no Sesc Pinheiros- especialmente para Marco Nanini, 56, que empresta seu nome ao protagonista, sem cunho autobiográfico.
Em parceria inédita, diretor e ator vêm conversando sobre a história desde
o início de 2004. Artista autocentrado (ainda assina luz, trilha, cenografia etc.), Thomas fala abertamente em colaboração na dramaturgia.
"No início, sentia-me como num oceano, não sabia como ou por onde navegar",diz Nanini.
O fio da meada o coloca em retalhos de cenas que resultam numa história de um personagem de natureza confusa, diante de "janelas" e "portas" que vão se desdobrando, curiosamente num espaço em que Thomas demarca vazios em meio a uma maca, caixas de papelão ou painéis gigantes com ilustraçőes de sua autoria.
A peça evoca as "morfologias do "Júlio César", de Shakespeare", Kafka, Joyce, Genet, Beckett e criadores que "aprontam ciladas com as palavras". "Estou mais para Arthur Bispo do Rosário, Hamlet ou Quixote", diz o personagem-ator que, se saberá depois, trabalha num IML e tem por hábito "sodomizar cadáveres".
"Isso tem que ser visto como metáfora da "descabação" da inocência, da iconoclastia, feita por artistas como [Marcel] Duchamp, [Andy] Warhol", diz o diretor. "Depois, veio a pós-modernidade de Heiner Muller, Bob Wilson, Pina Bausch, entre outros, que deixou fragmentos com os quais já não sabemos mais o que fazer."
Em cena, há ainda uma musa, uma dançarina vestida de preto (Fabiana Guglielmetti, 30), que chama o protagonista ao chão, voz política da consciência. O luto como contraposição ao jogo de mídia que também virá na
encenação de Gerald Thomas, cada vez mais afeito ŕ metalinguagem nas artes cênicas (e visuais).
Após 11 anos com a comédia "Irma Vap", até meados dos anos 90, Nanini passou a trabalhar com diretores como Guel Arraes, João Falcão e Felipe Hirsch. Com Thomas, sente-se como num recreio. "Estou me divertindo muito."
O encenador o viu pela primeira vez num palco em "Pano de Boca" (1975),
peça de Fauzi Arap, dirigida no Rio por Antonio Pedro.
Um Circo de Rins e Fígados
Texto e direção: Gerald Thomas
Com: Marcos Azevedo, Amadeo Lamounier, Pedro Osório, Gustavo Webner, Gilson
Matogrosso e outros
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